segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Carta para Úrano

por: Wile Ortros




















Uma bela mulher que por mim chamava
não era viva nem era alma
caminhava em brumas violetas esverdeadas
aos seus pés flores murchavam
me encantava com sua doce voz
já sobre encanto, nem pude ver a diante tamanho abismo,
caí,
se não morri,
foi pura sorte!

Estava quente o fundo do abismo
um calor confortável me trouxe um sono irresistível
arrastei pra mim duas pedras e usei de travesseiro
era 15 de Fevereiro de 85
acordei dentro de um sonho
com uma preguiça que carrego até hoje,
um mundo claro cheio de dúvidas
e eu adorava ouvir o vento rasgando as árvores
levantando poeiras vermelhas e o cheiro de fumaça
do diesel que velhos caminhões carburavam.

Por perder a esperança de acordar depressa desse sonho
Aprendi a língua dos seres que habitam esse novo mundo
mas aprender falar não quer dizer aprender usar palavras
por onde andei tentei de melhor maneira usa-las

Muros foram derrubados e um irmão nasceu
motivos e previsões não faltam pra este mundo acabar
mas antes que ele acabe, o tempo humano se esvai
existe aqui corrupção evidente e aprendemos desde cedo
todos anseiam pela oportunidade de também serem corruptos
Embora isso tudo afete a todos
todos se acomodam em seu estado único.

Seres amáveis, cativados, se aproximam e me conhecem
cuidam, castram, amam, limitam, apaixonam-se
me querem pelo que sou
mas querem mudar
e depois que mudam não querem mais
então parei de mudar, mas não parei de querer.

Solidão e silêncio alimentam minha forma
gosto de muitos,
preciso de todos.
me importo com poucos.
mas é mais fácil cuidar de flores
muitos me gostam,
todos precisam,
mas poucos se importam
se morreram as flores...

Cinquenta objetos brilhantes rasgaram os céus a noite passada
todos eles já sabem o que desejo
o simplíssismo do que me pertence
o que sei parece muito, por saber muito, sobre o que pouco sei,
mas o percurso se faz complexo.

uma sequência de acontecimentos inexplicáveis que expliquei,
me fez perceber que estar ocupado
avisado ou não,
te torna culpado por ser descuidado
e o amor vira ódio e vira amor de novo

existe uma lógica sentimentalista que é ignorada,
arranquei fora minha cabeça e meu coração
coloquei-os em frias bandejas idênticas,
uma em cada lado de uma balança,
observei por onze dias,
cada dia um pesava mais
mas nunca se equilibravam

reparei que o coração era mais lento
quando pesava, pesava muito
e a cabeça pensava que seu pouco peso
era leveza de consciência impune
e conscientemente deixava o coração pesar,
sangrei sem pena o coração com lamina
só então pesou minha consciência
para não matar o coração inteiro.

talvez de certo esteja errado, mas afinal fiquei exausto
sinto saudades das brumas venenosas que por outrora me encantavam
e de ver os pés de minha amada pisando flores semimortas.

leva-me daqui...
leva-me de volta!

***por: Wile Ortros

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